Quem são os melhores professores?

Li, há algum tempo, na habitual crónica semanal de Miguel Santos Guerra, o relato de uma investigação (1) que procura responder à questão que titula a presente crónica. Aqui a retomo, no modo de paráfrase.

A primeira dificuldade que o estudo teve de enfrentar teve a ver com o conceito de melhor professor: é aquele cujos alunos conseguem excelentes resultados, mas terminam os estudos odiando a matéria?
É o que consegue cultivar de forma privilegiada as genialidades que há em cada aluno?
É aquele cujos alunos dizem que é um magnífico companheiro, ainda que não aprendam nada de significativo?
Definidos os critérios, seguem-se os procedimentos metodológicos (observação, entrevistas) para conhecer como concebem a docência, como preparam as aulas, que métodos utilizam, que avaliações fazem e como se relacionam com os estudantes e com os colegas docentes.

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De entre as qualidades assinaladas, destacam-se dez características.
Os melhores professores:

i) Geram expectativas positivas. Evitam a linguagem das exigências e utilizam o vocabulário das expectativas no seu lugar. Convidam em vez de ordenar, assumem atitudes mais de cooperação do que de julgamento. Acreditam, confiam, exigem, motivam;

ii) Partem do quotidiano. Não se limitam a debitar a matéria do alto do seu saber e ajudam os estudantes a entenderem as conexões entre assuntos correntes e questões mais gerais e fundamentais.
Sabem que a sua disciplina é uma parte do universo científico e que a missão de uma parcela do conhecimento é compreender e intervir no mundo e na vida;

iii) Dominam a matéria que ensinam. Conhecem em detalhe a matéria que leccionam. São eruditos, artistas, intelectuais activos. Alguns possuem uma lista impressionante de publicações. Mas não fazem da ostentação um lugar comum, cultivando antes a humildade científica;

iv) Esperam mais. Tendem a mostrar uma grande confiança nas capacidades dos seus estudantes. Estão seguros de que os alunos querem aprender, e assumem, até demonstração em contrário, que podem fazê-lo;

v) São abertos. Não seguem um guião didáctico rígido. Amiúde, mostram-se receptivos a que os seus estudantes falem da sua aventura intelectual, das suas ambições, dos seus medos, triunfos e fracassos. A vida pessoal e social também tem lugar nas suas aulas;

vi) Gostam de ensinar. Preparam as aulas, programam as discussões e a resolução de problemas, são exigentes consigo mesmos e com os seus estudantes;

vii) Fazem auto-crítica. Não culpam os estudantes por tudo o que de mal acontece no processo e nos resultados de ensino. Também se questionam e aceitam rever atitudes e procedimentos;

viii) Criam contextos favoráveis para a aprendizagem que estejam o mais próximo possível dos ambientes reais;

ix) Evitam a arbitrariedade, clarificam as regras do jogo avaliativo, colocam a avaliação e a classificação ao serviço de novas aprendizagens;

x) Constroem comunidade, isto é, mantêm um forte compromisso com a comunidade académica e não se interessam apenas com o êxito dentro da sua sala de aula.
Eis algumas das características dos melhores professores universitários. Mas que certamente podem também servir de referência para a docência em geral.

(1) A investigação incide sobre a docência universitária. De qualquer modo, há características que podem ser universais”.

(inicialmente publicado no Correio da Educação.)

Daqui …

Miguel Ángel Santos Guerra é catedrático de Didáctica e Organização Escolar na Universidade de Málaga. Foi professor de todos os graus de ensino do sistema educativo espanhol. Leccionou no Ensino Primário, no Ensino Secundário, na Universidade Complutense e noutras universidades estrangeiras. Foi director de um estabelecimento de ensino e do Instituto de Ciência da Universidade de Málaga. É autor de numerosos artigos e de diversas obras sobre a organização escolar, avaliação educativa e formação de professores. É director do Departamento de Didáctica e Organização Escolar da Universidade de Málaga.

Seguir …

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